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Vesícula Biliar e Nutrição

Atualizado: 16 de set. de 2022


Source: unknown

Palavras-chave:

colelitíase; colecistite; bílis; colangite; colestase; colecistectomia



A vesícula biliar ("gall bladder" em inglês), é um orgão auxiliar do sistema digestivo situado junto ao fígado (imagem em baixo), que tem comunicações ao fígado e ao duodeno, e cuja função é armazenar (capacidade para ~ 40 - 50 ml) e mediar o transporte de bílis digestiva do fígado para o duodeno, necessários à absorção de nutrientes lipídicos (ie. gorduras) que vão entrando no intestino delgado.


A bílis é composta por: 95% água, ácidos gordos, colesterol, fosfolípidos, bilirrubina, proteínas, enzimas, porfirinas, vitaminas, e outros compostos (de depuração) incluindo compostos xenobióticos, metais pesados e tóxicos.


A bilirrubina é o pigmento que confere a cor verde à bílis (e a cor ictérica/amarelada à pele e olhos quando há uma disfunção da vesícula).


São produzidos cerca de 750 ml por dia no adulto, sendo o pool corporal total = 2,5-5,0g.


Síntese dos sais biliares:

A bílis é sintetizada nos hepatócitos a partir do colesterol. Os dois ácidos biliares primários são o ácido cenodesoxicólico e o ácido cólico. Numa segunda etapa estes combinam com iões de Ca/K/ou Na para formar sais biliares. Numa terceira etapa combinam com os aminoácidos glicina e taurina e formam respetivamente os ácidos glicocólico/glicocenodesoxicólico e taurocólico. Esta conjugação vai permitir melhor funcionalidade na absorção lipídica.


A secreção de bílis é "ativada" pela presença de gorduras/lípidos (e alguns amino ácidos) no duodeno, em resposta à hormona CCK (colecistoquinina) produzida no mesmo local (pelas células I), secretada na circulação.


Funções da bílis:


- (digestão) excreção duodenal de sais biliares produzidos no fígado para emulsificação/digestão/absorção de gorduras (e vitaminas lipo-solúveis). A bílis desdobra glóbulos grandes de gordura em gotículas de < 1mm, e forma micelas de lípidos de < 10nm, que vai permitir ação hidrolítica das enzimas pancreáticas (etapa final na absorção dos lípidos e vitaminas atreladas)


- regulação do metabolismo de colesterol. Diariamente cerca de 1000mg de colesterol são produzidos na formação da bílis e sais biliares, e cerca de 300-700mg são ingeridos; cerca de 1300-1700mg portanto são metabolizados no sistema digestivo diariamente; a produção endógena é ajustada em conformidade com o ingerido


- imuno função/proteção intestinal, através da excreção de imunoglobulinas e citoquinas


- excreção de compostos tóxicos e moléculas demasiado grandes (>300 to 500 daltons; ex. bilirrubina) para serem filtradas pelos rins


- outras: estimula secreção pancreática digestiva; inibe neuronalmente o apetite; atrasa o esvaziamento gástrico


The role of the exogenous pathway in hypercholesterolaemia J. Shepherd European Heart Journal Supplements (2001) 3 (Supplement E), E2–E5



wiki

Colelitíase (Litíase Biliar ou Cálculo Biliar)

- e Coledocolitíase, Colestase, Colecistite


- a Colelitíase (ou litíase biliar, ou cálculo biliar) define-se como a formação de cálculos na vesícula biliar, e resulta da composição anormal da bílis (que pode ter várias causas e mecanísticas) descritas em baixo


- estes cálculos biliares afetam milhões de pessoas (incidindo mais as mulheres que os homens, e mais a partir dos 50 anos de idade. Os cálculos podem-se formar e transitar para o duodeno sendo excretadas sem qualquer sintoma; assim como podem ficar retidas no ducto biliar sem causar sintomas


- existem 2 principais tipos de cálculos: 90% são cálculos de colesterol, 10% são cálculos de pigmento



Em relação aos cálculos de colesterol

(compostos por > 50% colesterol + Ca, pigmento biliares, proteínas e lípidos)


- estima-se que 25% dos casos tenham causa/origem genética e 75% ambiental


. (75%) : obesidade; síndrome metabólico; dietas hiper-calóricas e hiper-colesterolémicas; gravidez; idade avançada; nutrição parentérica; jejum; dieta hipo-calórica; algumas medicações (ex. clofibrato; octreotide; contracetivos orais); infeção crónica low-grade (produz alterações na mucosa biliar afetando a capacidade absorptiva e consequente constituição da bílis)


Em relação aos cálculos de pigmento

(compostos por < 20% colesterol + bilirrubina, Ca e glicoproteínas mucina)


- estão mais associados a patologias hemolíticas; cirrose alcoólica; fibrose quística; síndrome Gilbert; cirurgias ileais (que afetam circulação da bilirrubina); infeção biliar



Mecanísticas dos cálculos biliares:


. hipersecreção biliar de colesterol e/ou hipo-secreção sais biliares (favorecendo o rácio de colesterol biliar);


. desequilíbrio dos fatores da pro-nucleação/anti-nucleação biliar;


. hipo-motilidade biliar (colestase)


Problemas que podem surgir:


. obstrução do fluxo biliar e pancreático (coledocolitíase)


. inflamação (colecistite e colangite)


. desregulação da absorção de lípidos e vitaminas lipo-solúveis


. acumulação e reabsorção da bilirrubina, podendo resultar em dano hepático e icterícia (chamada cirrose biliar secundária); fezes ficam com cor mais clara. A bilirrubina quando reabsorvida e em circulação tem afinidade grande com tecidos elásticos, como o olho ou a pele, daí a aparência amarelada característica


. pancreatite, se a obstrução afetar o ducto pancreático


Tratamento:


- colecistectomia (remoção da vesícula)


- dissolução química


- alimentação:


. ingestão baixa em gorduras, principalmente saturadas; restrição <25% gorduras não é recomendado pois este nutriente é necessário à estimulação vesical (com vista a evitar desconforto abdominal e esteatorreia)


. vitamina C (afeta o passo-limitador no catabolismo do colesterol dos sais biliares) - está associada a a diminuição de risco em mulheres


. fibra dietética associada a menor risco


. atividade física - associada a menor risco


. oscilações de peso/jejuns prolongados/e dietas hipo calóricas poderão aumentar risco de colecistite


. etilismo associado a maior risco


. em caso de colecistectomia, a bílis é secretada no duodeno diretamente do fígado e dá-se uma dilatação natural algures no trajeto/ducto formando uma pseudo-vesícula; a alimentação oral poderá ser avançada gradualmente conforme aceitação do sistema gastrointestinal; 30-45g lípidos por dia OU gorduras hidrolizadas; fibra dietética alta para evitar refluxo duodenogástrico de sais biliares e síndrome pós-colecistectomia (sequestro dos sais biliares pela fibra), e para também evitar gastrite


. a resposta e tolerância individual varia significativamente de pessoa para pessoa



Humor

Humor(es) ...


A palavra "humor" foi escrita pela primeira vez em 1930 e significava inicialmente (do grego) "chymos" = suco, sabor, sapa; e (do latin) "umor" = húmido, humidade, fluído.


A palavra era usada para denominar e referir (em medicina antiga) o que o gregos antigos acreditavam serem os 4 tipos de fluidos/humores que compunham o corpo humano e definiam as suas características físicas e psicológicas.


Eram: a bilis amarela, a bilis negra, sangue e fleuma (ie. as excreções respiratórias). E era a antiga Teoria Humoral (ou Humorismo) dos gregos, que vingou na cultura popular e "científica" até (!) o surgimento da Teoria Microbiana da Doença circa 1850 que começava a responder às causas das coisas medicinais de forma mais lógica e convincente.


Acreditava-se que diferentes predominâncias (ou défices) destes tipos de humores definiam o caráter/personalidade/temperamento das pessoas.


A partir daqui facilmente a evolução etimológica da palavra ao longo dos tempos passou a ser utilizada na definição ou referência ao caráter psicológico das pessoas, ao seu ânimo e predisposições/excentricidades características, predisposições estas a matéria prima de estudo aos espetáculos de entretenimento cómico (ie. caricaturas psicológicas e de comportamento).


Pensa-se que esse "conhecimento" tenha sido originado pelos egípcios e mais tarde formalizado pelos gregos (circa 500 AC). Entre os seus preconizadores encontravam-se pessoas muitos respeitáveis à altura como Hippoacrates de Kos (pai da Medicina), o cientista grego Alcmaeon of Croton e Aelius Galenus.


Engraving by Virgilius Solis, the Elder, 16th century. This image has been color-enhanced.

Os 4 (principais) Humores da Medicina Hippocrática


Idealmente uma pessoa almejaria ao equilíbrio perfeito entre estes 4 humores. A predominância de um deles refletiria-se em um padrão de personalidade bem definido.


O equilíbrio ideal, segundo Galen da Grécia Antiga, seria (em proporção ao sangue): 1/4 fleuma, 1/16 bílis amarela e 1/64 bílis negra...


A predominância da bílis negra em uma pessoa associava-se à Melancolia. A palavra melancolia significa em grego exatamente "bílis negra" (melas = "dark, black", kholé = "bile"). Pensava-se que a bílis preta emanava dos rins e do baço. Também estava associada a características de analiticidade e e literalidade.


A predominância da bílis amarela associava-se à Cólera, e ao temperamento irritável e irascível (provavelmente porque essas pessoas estavam sempre num incómodo inimaginável com as suas dores de fígado e secreções estranhas?). Assim como à liderança e ambição.


A predominância do humor sangue conferia características de Otimismo, energia positiva, socialização.


E a predominância de fleuma tornaria a pessoa fleumática, impassiva, neutra de emoções, introspetiva, relaxada.


Estes eram as 4 principais manifestações dos humores. No entanto a Teoria Humoral era mais complexa e definia ainda mais variações das manifestações psicológicas dos humores.


Havia (dizia-se) pessoas: esplénicas (etimologicamente associada à palavra "baço"/"spleen" em inglês, antigamente julgava-se que este orgão era o centro das emoções - da alegria, animação, capricho, orgulho, malevolência, etc. Pessoas esplénicas tendiam à melancolia); as atrabiliárias (do latin "atra bilis" = bílis negra) era uma espécie de denominação antónima das pessoas hilárias); hepatolílias (pessoas que, ao em vez de produzirem demasiada bílis amarela e ficarem com predisposição à raiva e cólera, produziam a menos, e isso resultaria psicologicamente em falta de energia e de coragem, e num fígado branco como uma lília...); carminativas (estas pessoas tinham os humores desequilibrados e precisavam de um ´carminativo´ para os desemaranhar e equilibrar); ictéricas (devido à acumulação de bílis amarela, estava associada a pessoas invejosas); adustivas (estas eram pessoas melancólicas, desgastadas; fruto da bílis negra, claro). E etc.


Humores e a Alimentação


Curiosamente, em Teoria Humoral os humores estavam associados também a 4 características físico-químicas: o calor, o frio, a humidade e a secura. E da mesma forma estas características podiam-se encontrar nos alimentos. Um dos tratamentos aos desequilíbrios humorais era contrabalançar o desequilíbrio humoral específico com uma alimentação físico-quimicamente oposta.


Servir salsa a uma pessoa fleumática seria muito conducivo à melhoria da sua saúde. Mas servir salsa a uma pessoa colérica seria desastroso ao agravamento dos seus sintomas.





Anexos:


Composição da bílis. (Bile Formation and Secretion DOI: 10.1002/cphy.c120027)

(continuação) Composição da bílis.

Refs:

- Krause's Food & The Nutrition Care Process. 14th Ed Elsevier. Mahhan LK, Raymond JL.

- Advanced Nutrition and Human Metabolism. 7th Ed. Gropper SS, Smith JL

- https://www.merriam-webster.com/words-at-play/humorless-humor-vocabulary

- https://en.wikipedia.org/wiki/Humorism

- https://shakespeareandbeyond.folger.edu/2015/12/04/the-four-humors-eating-in-the-renaissance/

 
 

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