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Ultrafiltração Excessiva Na Hemodiálise: Riscos, Sinais e Prevenção

Atualizado: 5 de mar.


INTRODUÇÃO


A ultrafiltração (UF) é o processo pelo qual a hemodiálise remove a “água a mais” do corpo, ajudando a controlar sintomas e complicações do excesso de líquidos, como edema e tensão arterial elevada.


Quando se remove demasiado líquido ou demasiado depressa, pode ocorrer hipotensão intradialítica (queda de tensão durante a diálise) e redução do fluxo de sangue para órgãos como o coração, o cérebro e o aparelho digestivo, com sintomas (tonturas, náuseas, cãibras, fraqueza) e riscos potencialmente graves.


A evidência clínica associa taxas elevadas de ultrafiltração e episódios repetidos de instabilidade hemodinâmica a lesão cardíaca transitória (“myocardial stunning”), arritmias e pior prognóstico; e sugere também impacto na preservação da função renal residual em alguns doentes.


"O Stunning miocárdico (ou atordoamento miocárdico) é a disfunção contrátil temporária do músculo cardíaco que persiste após um episódio de isquemia grave, mesmo após o restabelecimento do fluxo sanguíneo (reperfusão). É um fenómeno reversível onde o coração precisa de tempo para recuperar a sua função."




AUMENTO DE PESO ENTRE DIÁLISES


Entre as dialises o paciente renal acumula líquidos e sal que têm como consequência alterações em órgãos importantes como coração, cérebro, pulmões, inflamação, doença vascular, anemia, etc.


Quanto maior o aumento de peso entre as dialises, maior é a tendência para retirar a maior quantidade de líquidos a fim de voltar ao peso seco. No entanto, retirar mais líquidos na diálise do que aqueles que o corpo é capaz de se adaptar constitui um risco elevado para complicações quer na dialise quer a medio-longo prazo.





EVIDÊNCIA CLÍNICA E MECANISMOS DE AÇÃO


A hemodiálise remove produtos tóxicos e água em excesso, ajudando também no controlo da tensão arterial.


Como a hemodiálise é, em regra, intermitente (três sessões por semana), os líquidos podem acumular-se entre sessões; a UF serve para voltar a aproximar o organismo do peso-alvo (frequentemente chamado “peso seco”/“peso objetivo”/“peso alvo” conforme a unidade).


Em termos práticos, fala-se de ultrafiltração excessiva quando a remoção de líquidos provoca uma redução do volume de sangue circulante que o corpo não consegue compensar adequadamente, levando a queda de tensão e a sintomas durante ou após a sessão.


O corpo tem tendência a compensar a perda de volume através do aumento da frequência

cárdica e vasoconstrição, provocando taquicardia e hipertensão para o fim da dialise com

consequências prejudiciais para todo o sistema vascular.


A hipotensão intra-dialítica (HID/IDH) é reconhecida como complicação frequente e

clinicamente relevante. As diretrizes KDOQI descrevem a hipotensão Intra-dialítica como queda de pressão associada a sintomas (p. ex., náuseas, vómitos, cãibras, tonturas/desmaio, ansiedade), com potenciais consequências como arritmias e eventos isquémicos coronários ou cerebrais.





Uma revisão europeia (ERA-EDTA/Oxford) explica que a IDH resulta da interação entre taxa de ultrafiltração, débito cardíaco e tónus arteriolar; quando a UF é “excessiva”, o débito cardíaco pode diminuir (sobretudo se os mecanismos compensatórios falharem), e a perfusão de órgãos pode ser perturbada, com impacto no coração, sistema nervoso central, rins e tubo digestivo.


A literatura moderna reforça a ideia de que o problema não é apenas “sintomas desagradáveis”: existe evidência de isquemia subclínica e lesão orgânica cumulativa associadas ao “stress circulatório” da hemodiálise (incluindo componentes relacionadas com ultrafiltração e instabilidade hemodinâmica).


Quanto à função renal residual, um existe uma associação entre maior UFR (mL/h/kg) e maior probabilidade de declínio rápido da função renal residual e da diurese.


O QUE É UMA ULTRAFILTRAÇÃO EXCESSIVA?


A “dose” de ultrafiltração por diálise depende muito dos problemas de saúde globais de cada doente, em particular da função cardíaca. Contudo, sabemos que a partir de 6 ml/kg/h (principalmente acima de 10 ml/kg/h) a mortalidade e possibilidade de complicações vai agravando.


Se tiver 70 kg, isto corresponde a 700 ml/h ou 2400 ml em 4h de tratamento.


SINAIS E SINTOMAS A VIGIAR


Durante ou após a diálise, esteja atento a: tonturas, fraqueza, bocejos/suspiros repetidos, náuseas, vómitos, cãibras, dor de cabeça, ansiedade, sensação de “quebra súbita”, visão turva ou desmaio.


Rembrandt van Rijn - Unconscious Patient (Allegory of Smell) - CC
Rembrandt van Rijn - Unconscious Patient (Allegory of Smell) - CC

COMO PREVENIR? MEDIDAS PRÁTICAS


• Controle de líquidos e sal: o sal aumenta a sede e pode favorecer retenção de líquidos.


• Pese-se e registe: o peso antes e depois da sessão ajuda a ajustar metas e perceber ganhos entre sessões. Mantenha um registo diário do peso para avaliar o quanto aumentou de peso entre as diálises.


• Fale sobre o “peso seco/peso alvo”: o peso objetivo varia ao longo do tempo, para cima ou para baixo e necessita de ajustes em conformidade; partilhe sintomas e registos com a equipa.


• Sinais vitais e sintomas: diga sempre se costuma ter queda de tensão/cãibras e quando acontecem (início, meio ou fim da sessão). Se tiver taquicardia no fim da diálise isso pode constituir sinal de que a UF foi excessiva ou se encontra abaixo do peso alvo.


• Medicação: não altere medicação por iniciativa própria; confirme com médico/enfermeiro como deve tomar medicamentos para a tensão nos dias de diálise.


• Cumpra a sessão completa, sempre que possível (interromper cedo pode dificultar o equilíbrio de líquidos e objetivos definidos).


• Não seja demasiado ambicioso: não vale a pena testar os seus limites. Existe uma margem de segurança na ultrafiltração total possível e se for constantemente ultrapassada trará problemas a médio prazo. A sua equipa tem como objetivo fazer uma diálise eficaz e bem tolerada. É preferível programar uma sessão extra ou mais prolongada do que tirar muito em pouco tempo.



"A patient dismayed at his doctor's advice not to drink any alcohol while recovering from a cold". Wood engraving by G. Du Maurier, 1875. (CC 4.0)
"A patient dismayed at his doctor's advice not to drink any alcohol while recovering from a cold". Wood engraving by G. Du Maurier, 1875. (CC 4.0)

QUANDO PROCURAR AJUDA URGENTE?


Procure ajuda urgente se tiver: dor no peito, falta de ar importante, desmaio, confusão, fraqueza súbita, sintomas neurológicos (ex.: dificuldade em falar), ou sintomas intensos/persistentes que não melhoram.


AÇÕES IMEDIATAS SE OCORREREM SINTOMAS


• Durante a diálise: chame o enfermeiro imediatamente; não espere que passe.


• Após a diálise (em casa): se estiver tonto/fraco, sente-se ou deite-se, evite levantar-se

de repente e não conduza. Contacte a sua unidade de

diálise para orientação. Se houver sinais de gravidade,

ligue 112.


PANFLETO-RESUMO




 
 

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