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História da Diálise Domiciliária

Atualizado: 9 de jan. de 2023


Dr. Belding Scribner

A história da HemoDiálise Domiciliária (HDD) confunde-se com a história da própria Diálise.


Em 1960 o Dr. Belding Scribner a trabalhar em Seattle, Washington desenvolveu um pequeno "shunt" que ligava uma artéria a uma veia (o shunt arterio-venoso) e que permitia o acesso à circulação sanguínea de uma forma continuada no tempo, tornando possível a realização da diálise por tempo indefinido.


Shunt arterio-venoso

O primeiro doente a fazer diálise foi um maquinista da Boeing de nome Clyde Shields, que permaneceu em diálise durante mais de 10 anos. Logo de seguida mais 3 doentes iniciaram diálise e com excepção de um doente que faleceu de complicações cardiovasculares alguns meses após iniciar diálise todos os outros sobreviveram em diálise por longos anos.


Clyde Shields, o primeiro paciente de hemodiálise, Março 1960

Assim, tornou-se possível substituir um órgão vital de modo a sustentar a vida de um insuficiente renal por um período de tempo indefinido. Este marco catapultou a diálise para a posição de um dos maiores avanços médicos do séc. XX, e tornou possível para os Insuficientes Renais Crónicos (IRC) a esperança e a possibilidade da não fatalidade da sua condição patológica que sem este tratamento seguia o curso natural para a morte.


O desenvolvimento da diálise iniciou-se com apoios para investigação, de modo que fornecer diálise a mais doentes obrigou a uma recolha de fundos em outras instituições públicas e privadas. Em virtude da escassez destes recursos, no advento da disponibilidade deste tratamento a entrada/seleção dos pacientes para fazer diálise estava restrita apenas a alguns doentes que obedeciam a critérios muito apertados definidos por comissões médicas e de aceitação. Estas comissões (ou comités) ficaram conhecidas como as "Comités da vida e morte".


O Comité de Seattle para a seleção e regulamentação de pacientes insuficientes renais.

Foram tempos difíceis para a comunidade dos médicos que tratavam estes doentes - e claro ainda mais para os próprios doentes. Foi também devido ao trabalho destes comités científicos e organizados para este fim específico que surge a disciplina da Bioética em medicina.


Carolina, a primeira doentes a iniciar diálise no domicilio.

Uma jovem, de nome Carolina de 16 anos, que sofria de lúpus eritematoso e tinha sido rejeitada para fazer diálise, levou Dr. Scribner e o seu Engenheiro Dr. Babb a encetarem uma corrida contra o tempo afim de prepararem uma máquina e tratamento de águas que pudesse ser levada para casa, que fosse segura e que permitisse ser operada pela mãe de Carolina. Isto foi bem sucedido, e a Carolina foi colocada a fazer diálise no domicÍlio, onde fez diálise durante mais de 5 anos.


Depois desta experiência, outras se seguiram, e rapidamente se apercebeu que fazer diálise em casa era possível, seguro e além do mais permitia uma melhor reabilitação. Dado ser mais económica, ir para casa permitia oferecer diálise a mais doentes. Popularizou-se então a expressão “ir para casa ou ser transplantado”.


Rapidamente cresceram os programas de diálise em casa. Em Seattle é transformado um motel num local de ensino para diálise domiciliária, o Coach House Motel. Aí foram ensinados muitos doentes de todo os EUA e de alguns países da Europa e Ásia.



Percentagem de doentes em HDD nos USA de 1960 a 1990.

No início da década de 70, uma grande parte dos doentes IRC praticavam diálise no domicílio: 40% nos EUA, 60% na Inglaterra, 50% na Austrália e Nova Zelândia e cerca de 20% em muitos Países da Europa. Portugal passou ao lado deste fenómeno.


Em 1972/1973 o Governo dos EUA aprova a comparticipação da diálise, e a partir daqui surgem por todo os EUA centros de diálise privados, o que veio a permitir o acesso quase universal ao tratamento, mas por outro lado desincentivou a ida para o domicílio. A Diálise Peritoneal, outra modalidade de diálise no domicílio que era mais simples e fácil de aprender começou também a estar disponível. Por estas e outras razões, a diálise domiciliária entrou num franco declínio, atingindo menos de 1% da população em diálise no ano de 2004. Apenas a Austrália e a Nova Zelândia dos Países mantiveram números expressivos de doentes no domicílio, entre os 25 e os 50%.


Apesar deste declínio sempre existiram regiões em diferentes países do mundo que mantiveram um grande número de doentes em diálise no domicilio, confirmando os melhores resultados com esta modalidade de tratamento, como seja melhor Reabilitação, mais baixa taxa de hospitalizações e uma mais baixa taxa de mortalidade.



O RESURGIMENTO DA DIÁLISE DOMICILIÁRIA


A laranja o número que fazem diálise em casa com a máquina NxStage, nos EUA 2000-2007.

Em cima pode-se ver o número de doentes em diálise domiciliária nos EUA de 2000-2007.


Pode-se reparar que nos últimos 3 anos o número quase que duplicou.

Nos últimos anos, principalmente com novas máquinas mais apropriadas ao domicílio, esta modalidade de diálise parece estar em franca expansão, e as grandes companhias de diálise estão a ver nela um segmento de mercado onde vale a pena investir. O ressurgimento da diálise no domicilio está em curso.




Do arquivo Centrodial "Os Primórdios da Diálise Domiciliária" :







Referências:

- Arquivo Centrodial

- https://www.ajkd.org/article/S0272-6386(07)00116-3/fulltext

The Early History of Dialysis for Chronic Renal Failure in the United States: A View From Seattle


 
 

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