Aconselhamentos Nutricionais para Após o Transplante Renal
- Centrodial

- 27 de jun. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de jul. de 2022

As recomendações nutricionais para o indivíduo transplantado prendem-se principalmente com cuidados a ter em relação a à terapia imunossupressora, necessária ao auxílio da sobrevivência do orgão estrangeiro.
Estas medicações podem incluir:
- Azatioprina (Imuran®)
- Corticoisteróides (ex. prednisolona)
- Inibidores da calcineurina (ex. ciclosporina A, Gengraf®, SangCya®, Sandimmune®, tacrolimus/ProGraf® F506)
- Sirolimus (Rapamune®)
- Everolimus (Zortress®)
- Micofenolato mofetil (CellCept®)
- Ácido micofenólico (Myfortic®)
Quais são as implicações destas medicações, relativamente à nutrição ?
Os corticoisteróides podem provocar catabolismo proteico e do tecido muscular ; hiperlipidemia ; retenção de sódio ; aumento de peso ; hiperglicemia ; osteoporose ; desequilíbrios eletrolíticos ; hipercalcémia.
Os inibidores da calcineurina podem facilitar a hipercaliémia (aumento potássio) ; hipertensão ; hiperglicemia ; e hiperlipidemia.
Pormenor importante & improvável:
- Não deve beber sumo de toranja ou de romã, se fizer tacrolimus ou ciclosporina.
- Estes alimentos são conhecidos por interagirem com vários tipos de medicações (metabolização via P450 CYP3A4) incluindo as mencionadas, podendo fazer aumentar as concentrações e efeito das mesmas, e aumentar assim o risco de efeitos secundários, incluindo nefrotoxicidade.
Recomendações Nutricionais
Primeiras 6 semanas após cirurgia:
- Aumentar ingestão de proteína (1.2-1.5 g/kg do IBW)
- Dieta eucalórica (30-35 kcal/kg do IBW), com vista à manutenção do peso corporal
- Restrição de sódio moderada (2-3 g/d)
(com o objetivo de manter suporte ao catabolismo cirúrgico e fisiológico, e evitar balanço nitrógeno negativo; e evitar retenção de líquidos, e evitar hipertensão)
Após 6 semanas / Após recuperação:
- Normalizar ingestão de proteína (1.0 g/kg do IBW)
- Optimizar composição corporal (em termos de IMC e massa magra)
- Restrição de sal/sódio - para minimizar risco de hipertensão e retenção de líquidos
- (caso a caso)
- Restrição de lípidos e gorduras - se justificado por patologia cardíaca e hiperlipidemia
- Restrição de potássio - se hipercaliémia
- Restrição de Cálcio - se hipercalcémia
- Restrição / Suplementação de Fósforo - consoante hiper- ou hipofosfatémia
- Hidratação -> 2 L / d
- Seguir regras apertadas de higiene alimentar

Importante-íssimo :
- se é diabético ou intolerante à glicose, monitorar atentamente a glicemia e intervir com estratégias de nutrição e exercício físico:
. ingestão controlada de hidratos de carbono, adequada às necessidades do indivíduo
. preferência pelos hidratos de carbono complexos e não processados
. prática de exercício físico regular aeróbio e anaeróbio, dentro da capacidade individual ; mínimo 3x por semana
[a diabetes e o mau controlo glicémico é, juntamente com a hipertensão, um fator de risco importante à perda da função renal / além de a outras complicações de saúde]
[os cuidados acima referidos aplicam-se também aos não-diabéticos, visto haver uma predisposição à desregulação da glicemia e da lipidemia devido ao uso da medicação pós-transplante]
- deve seguir regras de higiene alimentar mais apertadas devido à medicação imunosupressora que aumentam o risco a infeção. Inclui:
. lavagem frequente das mãos
. controlo das temperaturas de cozedura
. evitar alimentos crus
. entre outros (mais conselhos em baixo)

Um pouco mais sobre Segurança Alimentar
Existem 3 grandes formas de contaminação alimentar:
- por microorganismos
- por agentes químicos
- por agentes físicos
A maior parte das doenças de origem alimentar resulta da ingestão de alimentos contaminados por microrganismos que podem provocar infecções ou podem ser tóxicos. E é precisamente este o risco ao qual o transplantado está mais suscetível devido à sua imunidade suprimida.
Os sintomas mais frequentes são dores de estômago, vómitos e diarreia (evacuação 3 ou mais vezes em 24 horas), dores de cabeça, febre, fadiga ou mesmo perturbações do sistema nervoso (visão ou fala), dificuldade respiratória, septicémia, meningite, aborto, parto prematuro e, em situações extremas, morte.
Os sintomas geralmente aparecem 24-72 horas após a ingestão do alimento contaminado.
As duas principais causas (evitáveis) de intoxicação alimentar são:
- a não confeção dos alimentos a temperaturas corretas e
- o deixar os alimentos confeccionados à temperatura ambiente
Devem ser tomadas diligências de segurança alimentar mais apertadas para evitar incorrer nestes riscos e consequências.
Os 5 pilares da Segurança Alimentar na cozinha são:
- Higiene e saneamento da cozinha
- Higiene pessoal
- Controlo da temperatura
- Controlo do armazenamento
- Práticas de manuseamento
Regra de Polegar 👍🏻
" As temperaturas inferiores a cerca de 5 graus Celsius reduzem a velocidade do crescimento da maior parte das bactérias e as temperaturas acima dos 60 a 65 ºC destroem a grande maioria dos microrganismos.
" 5ºC e 60ºC é a zona de temperatura perigosa"
" 20ºC - 45ºC é o intervalo de muito perigo"
Regras a seguir:
- Depois de cozinhada a comida deve manter-se sempre a mais de 60ºC até servir e consumir (20-45ºC é o intervalo de perigo)
- As sobras nunca devem ficar à temperatura ambiente mais de 2 horas após confeção. Caso fique, o descarte deve ser considerado
- Dentro de 2 horas as sobras a serem guardadas não devem descer dos 45ºC até serem colocadas a conservar/refrigerar
- O re-aquecer das sobras deve sempre atingir >70ºC
- É seguro re-aquecer sobras congeladas (em panela, forno, microondas), se for possível de forma o mais rápida possível (apesar de afetar a qualidade dos alimentos). O tempo de reaquecimento será sempre maior do que se os alimentos congelados forem previamente descongelados
- Em segurança alimentar, aliado às orientações de segurança alimentar, um termómetro é a ferramenta imprescindível
- Os alimentos devem ser completamente descongelados antes da confeção (ou a confeção demorará mais tempo, implicando maior exposição à temperatura ambiente)
- Para o descongelamento no frigorífico, deve ser utilizada a prateleira mais baixa (para evitar contaminações cruzadas)
- Após descongelação, os alimentos devem ser confecionados imediatamente ou assim que possível (Prazo máximo – 1 dia)
- O descongelamento com água fria (em oposição ao recurso do frigorífico), apesar de mais rápido, deve ser última alternativa
- a temperatura ideal do frigorífico é 3ºC - 4ºC
O que não fazer ✋
- Não deixar os alimentos cozinhados mais de 2 horas à temperatura ambiente
- A prática de deixar a comida arrefecer à temperatura ambiente durante toda a noite é inaceitável
- A conservação dos alimentos confeccionados e refrigerados não deve exceder 3 dias
- Nunca se devem juntar alimentos crus com alimentos cozinhados. Porquê? Dá-se a chamada Contaminação Cruzada. Nos alimentos cozinhados, as elevadas temperaturas destruíram os microrganismos que eles pudessem conter e ao colocá-los junto de alimentos crus, estes podem contaminá-los com microrganismos patogénicos que dificilmente virão a ser destruídos, pois quando se re-aquece a comida, raramente se atingem temperaturas suficientes para matar os microrganismos.
- De lógica igual, o local dos confecionados assim como os utensílios e tábuas utilizados nesta área, não devem cruzar com os alimentos crus e por confecionar
- Nunca re-congelar alimentos
- Deve-se evitar colocar alimentos quentes no frigorífico, pois estes podem fazer oscilar a temperatura do frigorífico e colocar em risco a contaminação de todos os outros que lá se encontram
- Deixar temperatura de congelamento subir > 5ºC
- Descongelar à temperatura ambiente
- Descongelar com água quente ou morna
- Utilizar as prateleiras do frigorífico superiores
Outras boas práticas:
- Prepare as refeições de forma a evitar sobras
- Lavar frequentemente as mão; antes e depois de manusear os alimentos; entre manuseamento de alimentos crus e confecionados; etc
Relembrar:
- 5ºC e 60ºC é a zona de temperatura perigosa
(< 5ºC os m.o. estão vivos mas não se multiplicam , > 60ºC os m.o. morrem ou não se multiplicam)
Pormenor importante & improvável:
- Não deve beber sumo de toranja ou de romã, se fizer tacrolimus ou ciclosporina.
- Estes alimentos são conhecidos por interagirem com vários tipos de medicações (metabolização via P450 CYP3A4) incluindo as mencionadas, podendo fazer aumentar as concentrações e efeito das mesmas, e aumentar assim o risco de efeitos secundários, incluindo nefrotoxicidade.
- Confirme sempre com um profissional clínico antes de tomar algum suplemento alimentar ou ervanário. Assim como acontece com as frutas acima, existem interações descritas entre medicações usadas pós-transplante e suplementos que podem sem prejudiciais à saúde e longevidade do transplante. [exemplos em baixo]


Refs:
- https://www.asae.gov.pt/seguranca-alimentar
- http://repositorio.insa.pt/bitstream/10400.18/2371/
3/Seguranca_Alimentar-Guia_de_Boas_Praticas_do_Consumidor.pdf
- Nutrition in Kidney Disease. 3rd Ed. Humana Press 2020. Burrowes JD, Kovesdy CP, Byham-Gray LD.


